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Blog do Fernando Assis Lemos
 


Mau Presságio

"Santa Maria do Filme Ruim!". O brado vem de poltrona ao lado, terça à noite, na sala 1 do Araçatuba Shopping. Um exclame do Cadu, lá da TV Tem, que, se já com senso crítico afinado, ainda estagiário ao que me consta, pode ter futuro como operador da comunicação social. Um reclame do Cadu, ao fim da sessão, contra mais uma presepada da indústria norte-americana da sétima arte.

É. A frase bem que poderia exortar os publishers dos veículos que abrigam virtuoses da crítica cinematográfica a dar a esses caras cada vez mais espaço para propalarem aos quatro ventos avisos que nos possam poupar dessas "bombas" que Hollywood impõe.

Por que não? Caro colega de jornalismo araçatubense, façamos assim: rogue às "divindades" jornalistico-cinematográficas tupiniquins para que, sob o fluxo dos quatro ventos, façam ecoar sua pesada pena aos quatro cantos do País, e para que recebam dos publishers mais e mais espaço, voz e vez, de forma a nos livrar de todos os incômodos proporcionados por tais produções.

Prezado Cadu, falando em divindade, se for o caso, faça até mesmo pois do seu "Santa Maria" um mantra. Faça dele um meio para invocar espíritos de luz ou quaisquer entidades extra-terrenas que possam nos afastar das circunstâncias e acasos que levam a tomarmos contato com esses lixos.

Mas, se não quiser entrar em campo tão místico, ao menos faça de seu brado um sei-lá-o-quê a embalar os especialistas ao que há de mais requintado em seus estilos mordazes, com vistas a nos alertar sobre os perigos dessa bobajada incompreensivelmente cara, se impressionantemente tosca.

Fiquemos assim então, estimado Cadu. Rogue apenas para que os Pedros Butchers, Rubens Edwalds Filhos, Luiz Carlos Mertens e Luiz Zanins Oricchios da Vida, monstros sagrados que são, tenham centímetros e centímetros de espaço, minutos e minutos de tempo, para que massifiquem sua mensagem nos meios impressos e eletrônicos.

E para que, assim, eu e meus pares sejamos informados, como somos de que tal sujeita foi eliminada do Big Brother, de que cinema ruim, se não faz mal à saúde, é uma tremenda perda de tempo. Ou de duas horinhas preciosas.

Caro (e raro) leitor deste blog, que acaba de tomar contato com estas mal-traçadas resultantes de noite mal dormida pela absoluta congestão das vias respiratórias, não ria de mim ou tripudie de minha pretensão. Tenho perfeito senso do ridículo e perfeita noção de que me falta cabedal para criticar qualquer filme, por mais chinfrim que seja. Mas é natural que qualquer ser humano com o mínimo de discernimento rechace essas merdas americanas.

Tinha prometido a mim mesmo refutá-las, mesmo mediante à mais atrativa propaganda. Não que tivesse a pretensão de passar a prestigiar apenas as obras produzidas no Velho Mundo, "em" França, no circuito Cannes-Berlim, no eixo Tâmisa-Sena-Mediterrâneo.

Imagina! Nada a ver. Não saco nada do que esses analistas da arte da claquete sacam. Seus QIs são infinitamente maiores do que o meu.

Imagina se algum deles curte futiba como eu curto?! Pode até ser visão sectária, mas, por tê-la em determinados casos, vejo como improvável a conciliação de determinadas artes que se pratica ou em em que se milita e a arte da bola. Isso é coisa para, no máximo, literatos e músicos. Como Veríssimo e Chico. Não para críticos de cinema. Se bem que aquele Fernando Meirelles é botafoguense doente. Até arrematou uma camisa do Pelé em casa de leilão de Londres. Ou seria do Zagallo?

Quem sou eu para, do nada, começar a desprezar Predadores, Jurassic Parks, King Kongs e Godzillas e me meter a besta de dizer que só "cinema-cabeça" agora me atrai ou fascina?

O fato é que, mesmo com essa promessa, de fugir das "bombas" de Hollywood como o capeta foge da cruz, quebrei o voto. Lá fui eu ao cinema. Estava lá com a Patrícia Mendonça e a moçada da TV Tem. Vendo "Presságio"... Que bosta... Fui por causa do Nicolas Cage. E me estrepei.

Nicolas Cage indicava o filme. Seu protagonismo indicava que pudesse valer a pena. Ele, Cage, que, tirantes algumas tolicezinhas, fez "The Roc" com Sean Connery (porra, esse filme teve como inspiração a mesma Alcatraz abordada em "O Conde de Monte Cristo!").

Ele, Cage, que fez com John Travolta "A Outra Face" (o filme até virou Cult entre notívagos das salas Bês Poeirinhas de São Paulo). E que fez, pasmem, "Oito Milímetros" (sob pretexto de produção policial, retratou de forma peculiar e interessante o submundo da pornografia que utilizava romanticamente esse tipo de bitola de filme nos anos 1960, nos EUA).

Pois é. Nick Cage, excepcional ator, sempre a serviço da linha "ação-cabeça", faria uma bostinha americanófila? Fez! "Presságio" é uma bostinha? É!

Vejam se não. Para resumir a ópera, o filme tem uma plêiade de diálogos padrão para exaltação dos valores e da família americanos. Vou citar só um, acho que o mais bizarro, em que se promove a já conhecida apologia deles à harmonia entre fé e ciência (Cage, cientista, é filho de um pastor protestante).

Tudo isso tendo como pano de fundo os lugares-comuns de cenários igualmente batidos.

Alguns deles: casa com arquitetura de madeira em condomínio de campo sem cerca (e com utilitário estacionado); menino sendo orientado a tomar direitinho o breakfast com sucrilhos, leite e suco de laranja; menino/menina sendo convenientemente educados pelos impecáveis núcleo familiar e sistema de ensino oficial estaduninense; menino vendo TV a cabo e com acesso à high tecnology, mas descontaminado de sedentarismo.

Tem até , e bem à la "Independence Day", nave espacial descendo ridiculamente do céu, com fachos de luz e plataformas para desembarque dos alienígenas que vêm  abduzir (no caso, resgatar) as crianças "eleitas" para recomeçar a humanidade.

Só faltaram os diálogos tipicamente de cinema americano, com frases/expressões como "What´s going on", "bull-shit", "looser" e "ass hole".

Mas o pior de tudo é o inverossímil enredo por meio do qual se constrói a trama que leva a crer que uma menina, 50 anos antes de 2009, vislumbrou catástrofes mundiais posteriores a partir de uma sequência numérica que visualizava e passou para uma folha de papel enterrada na "cápsula do tempo".

Tão inverossímil quanto o processo pelo qual o Nicolas Cage, a partir do acesso aos números, tem o insight que lhe permite pressupor que indicavam alguma mensagem para o futuro.

Enfim, o filme é uma bosta. Precisava amarrar uma conclusão aqui, mas tenho que dormir. Amanhã posto no blog.

 

PS: Este post inaugura uma fase meio que de escrita à Xico Sá. Uma questão de treino, de aperfeiçoar uma liguagem legal que pouco pratico ou uso. Se ficar algo meio fora de tom ou ridículo, me perdoem. Para mim, blog se serve justamente a esse propósito. Blog pode ser um laboratório.

 



Escrito por flemos às 15h55
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